Essa ciranda
Quem me deu foi Lia
Que mora na Ilha
de Itamaracá…
Para muita gente, Ciranda tem raiz e sotaque pernambucano. E fortes traços de canções praieiras, como as entoadas por pescadores e suas companheiras, enquanto remendam as redes ou tratam os peixes trazidos de alto mar. E associada à cirandeira-mor Lia de Itamaracá, que tem história, e não é de agora, mas ganhou um pouco mais de visibilidade no Brasil a partir dos anos 70 do século passado, graças a gravações do Quinteto Violado, afinadíssimo grupo vocal e instrumental pernambucano.

Dança de roda infantil de origem controvertida, segundo um dos mais conhecidos estudiosos do nosso folclore, Luís da Câmara Cascudo (autor do Dicionário do Folclore Brasileiro, cuja primeira edição é de março de 1954), a ciranda é vulgaríssima no Brasil, vinda de Portugal, onde é bailado de adultos. Por aqui, também em São Paulo e outros estados do Sul/Sudeste, é dança de adultos, daquelas que fecham bailes rurais como o fandango, em rodas concêntricas – homens por dentro, mulheres por fora, entoando cantorias como esta versão recolhida em Natal (RN): “Ó ciranda, ó cirandinha/Vamos todos cirandar/Vamos dar a meia volta/Meia volta vamos dar/E depois da volta dada/Cavalheiro troque o par”… Um pouco diferente desta versão entoada nos anos 1950 em Portugal: “Ó ciranda, ó cirandinha/Vamos dar a meia volta/Meia volta vamos dar/Vamos dar a outra meia/Outra meia e troca o par”…
A associação da ciranda a outras expressões do nosso folclore oriundas da Península Ibérica, observada por diferentes estudiosos do assunto, vem de longa data, como em publicações de gente do naipe de Florestan Fernandes (As Trocinhas do Bom Retiro), Veríssimo de Melo (Rondas Infantis Brasileiras), Zaíde Maciel de Castro (Danças Brasileiras) e outros que se debruçaram sobre o assunto, como Mário de Andrade (Música do Brasil).
PENEIRANDO – Ciranda, para quem não sabe, é o nome de uma peneira grossa de palha, utilizada para joeirar grãos, cascalhos e pedriscos. O Dicionário da Língua Portuguesa, da Larousse Cultural, registra que o substantivo feminino Ciranda vem do árabe saranda. E o verbo transitivo Cirandar significa passar pela ciranda, peneirar; enquanto o verbo intransitivo Cirandar quer dizer andar de um lado para o outro, dançar a ciranda.
Já o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa registra que ciranda, além de “peneira grossa de palha para joeirar grãos”, é uma dança de roda infantil ou adulta, oriunda de Portugal, com trovas cantadas que determinam os movimentos figurados. A data mais antiga da “expressão obscura” é do espanhol zaranda, conexo ao português ciranda (çaranda, 1400).
Ah! Joeirar quer dizer peneirar, separar o joio do trigo, passar pela peneira.
Peneira daqui, futuca dali, há muita fumaça e pouco fogo quando se fala em ciranda por essas bandas. Mário de Andrade fazia referência a um certo samba rural coreografado como se dança a ciranda, na zona rural fluminense, na primeira metade do século passado. E há alusões ao bailado em terras brasileiras já nos séculos XVIII e XIX. Mas tudo muito vago. Os pernambucanos puxam a brasa pro seu peixe, atribuindo a dança a reuniões de trabalho e/ou festiva em aldeias de pescadores.

VAMOS TODOS CIRANDAR – Além das cantorias na voz de Lia de Itamaracá, expressão artística e cultural da ilha que fica a menos de 50 km do Recife, é possível apreciar ciranda em gravações como Minha Ciranda (Antônio Perna/Ruy Espinheira) em discos do Quinteto Violado (LP Berra Boi, Philips, 1973), Roda de Ciranda Nº 2 (Marcelo Melo, Toinho Alves, Luciano Pimentel), no disco Folguedo (Philips, 1975), e Roda de Ciranda (Marcelo Melo/Toinho Alves), no LP Asa Branca (Fontana/PolyGram, 1979).
Há, ainda, composições escritas e/ou gravadas por outros compositores. Como Paulinho da Viola e Capiba. Veremos a seguir:
Eu sou Lia [Ciranda de Lia] – (Gravada por Paulinho da Viola)
Eu sou Lia da beira do mar
Morena queimada do sal e do sol
Da Ilha de Itamaracá
Quem conhece a Ilha de Itamaracá
Nas noites de lua
Prateando o mar
Eu me chamo Lia e vivo por lá
Cirandando a vida na beira do mar
Cirandando a vida na beira do mar
Vejo o firmamento, vejo o mar sem fim
E a natureza ao redor de mim
Me criei cantando
Entre o céu e o mar
Nas praias da Ilha de Itamaracá
Nas praias da Ilha de Itamaracá.
Minha ciranda – (Gravado por Capiba)
Minha ciranda não é minha só
Ela é de todos nós
A melodia principal quem
Guia é a primeira voz
Pra se dançar ciranda
Juntamos mão com mão
Formando uma roda
Cantando uma canção
PATRIMÔNIO VIVO DE PERNAMBUCO – Pernambucana da primeira metade do século passado, e xará da avó paterna de Tayra, Maria Madalena Correia do Nascimento, Lia de Itamaracá nasceu no dia 12 de janeiro de 1944, na ilha que agregou ao nome artístico. Sempre morou ali. Com certeza não inventou a roda de ciranda. E começou a participar das manifestações deste bailado cantado aos 12 anos de idade. Única dos 22 irmãos a se dedicar à música, diz ela que isso “é um dom de Deus e uma graça de Iemanjá”. Por essas e outras foi uma das contempladas como Patrimônio Vivo de Pernambuco, através da Lei estadual nº 12.196 de 2 de maio de 2002.
Varapau para os padrões nordestinos (e mesmo do estado de São Paulo), do alto de seus 1,80m de altura, ela canta e compõe desde a infância. E não é de agora que é considerada a mais famosa cirandeira do Nordeste. Também canta e compõe “coco de roda” e maracatu. Conhecida como Lia de Itamaracá desde os anos 1960, ela é a fonte de um refrão famoso: “Ó cirandeiro/Cirandeiro ó/A pedra do seu anel/Brilha mais do que o sol”, versos aos quais foi incorporado: “Esta ciranda quem me deu foi Lia/Que mora na Ilha de Itamaracá”…

Em 1977, a cirandeira gravou seu primeiro disco, “A Rainha da Ciranda”. No entanto, segundo conta, não recebeu nem um tostão de mel coado como pagamento pelo trabalho. Vida que segue. Mais de duas décadas depois de debutar, foi redescoberta no festival Abril Pro Rock, realizado no Recife e em Olinda, em 1988. Ali fez sucesso retumbante e tornou-se conhecida em todo o Brasil. Até então, só era famosa em Pernambuco e entre os compositores e estudiosos da cultura popular nordestina.
O CD Eu sou Lia, lançado pela Ciranda Records, saiu em 2000. Reeditado pela Rob Digital, o repertório incluía, além de cirandas acompanhadas de percussão e saxofone, outros ritmos como coco de raiz e loas de maracatu. A gravação acabou sendo distribuída na França por um selo de world music e a voz rascante de Lia despertou a atenção da imprensa internacional, que começou a chamar suas composições de trance music, numa tentativa de explicar o transe que o som provocava no público.
Por essas e outras, Lia conquistou mais espaço por aqui. Participou de uma faixa do CD Rádio Samba, do grupo Nação Zumbi. Teve seu nome citado em composições dos pernambucanos Lenine e Otto. E hoje as cirandas de Lia são cantadas por muita gente. Lia, contudo, continua morando na Ilha de Itamaracá.
A ilha fica a cerca de 50 km do Recife. Contam que teria recebido os primeiros portugueses na figura de náufragos. E falam da passagem por ali, de João Coelho da Porta da Cruz, em 1493, e Duarte Pacheco Pereira, em 1498. Sabe-se, ainda, por registros da Coroa, que em 1526 já havia no local uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, de responsabilidade do padre Francisco Garcia, na Vila Velha. E que a ilha prosperava à sombra da economia açucareira e, em 1630 já possuía cem prédios, uma Santa Casa de Misericórdia, casa residencial do governador, câmara, cadeia e duas igrejas – a Matriz de Nossa Senhora da Conceição e a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. O nome Itamaracá deriva da língua tupi e, entre outros significados propostos, quer dizer “pedra que canta”, dos termos “itá” (pedra) e “mberaká” (chocalho).
Tudo isso pode ser cem por cento verdadeiro, parte inventada e outra parte conversa de pescador. Até daria para compor uma ciranda. Mas isso é coisa pra cirandeiro, coisa que não sou.


