Béjart fala que a dança é uma das coisas que mais une o homem, que é algo capaz de derrubar o mito da Torre de Babel, porque através da dela todos se comunicam, sem limites ou barreiras. E se pensarmos em momentos felizes e emblemáticos da vida de uma pessoa, sempre veremos que há dança envolvida: seja a valsa de quinze anos, a primeira dança de um casal no dia de seu casamento, jogadores de um time que acaba de ganhar um título ou fazer um gol fazendo uma rodinha numa espécie de “tchu-tchu”, ou mesmo os jogadores néo-zelandezes, que sempre fazem uma apresentação de haka antes de começarem uma partida (para entrar em conexão com seus ancestrais maori).
É só ver, a dança sempre vai estar ali, porque dança é uma das mais puras expressões da cultura de um povo. E Béjart também brinca que se um bêbado se levanta e começa a dançar, logo é seguido por outro e mais outro e mais outro, e rapidamente teremos um grande grupo de bêbados dançando, e logo se forma uma turma coesa, unindo todos em torno de um interesse comum, não importando mais nada, nem língua, nem classe social, nem visão política, nada, só o movimentar de seus corpos é importante naquele momento.
A palavra dança, em todas as línguas européias (seja danza, dance, tanz etc.) derivam da palavra ‘tan’, que vem do sânscrito e significa tensão. Isso porque dançar é, acima de tudo, criar uma tensão muscular em seu corpo e estabelecer uma relação próxima e ativa entre o homem e a natureza. A dança surgiu para que o homem pudesse identificar-se com o seu “ao redor”, captar os movimentos e as forças da natureza, e captá-los, imitá-los. Para o homem ancestral, esse expressar era algo forte e necessário. Basta parar e pensar que sempre que pensarmos em algo relacionado a alguma tribo, cultura etc. sempre vamos fazer relação com algum tipo de dança: há a dança da chuva, dança do acasalamento, dança de celebração de conquista etc. E se pararmos e pensarmos em dança caráter, há um sem fim de danças características de um povo, de uma cultura. E tudo isso é muito lindo e enriquecedor!!!
Então acho que já está claro que dança é uma expressão artística. E como toda expressão pura de arte é algo inato do homem. Por isso, podemos parar e pensar que quase todo ser humano tem instinto/necessidade de dançar e também tem habilidade para isso. E é muito importante que se enfatize isso, que se martele isso na cabeça de todas as pessoas, que se insista nesse ponto: TODO SER HUMANO TEM CAPACIDADE PARA DANÇAR!
As limitações para isso somos nós criamos dentro de uma série de regras e normatizações que são posteriores ao instinto em si. Somos nós que dizemos que alguém não tem ritmo, que não tem molejo, que tem “dois pés esquerdos”, ou que é en dedans, que não tem abertura, que não sabe contar etc. etc. etc. E essas normas todas, ainda que sejam importantes, nada tem a ver com o impulso da dança em si. Por isso é importante que um professor de dança, além de buscar a constante evolução de seu aluno, também tenha um olhar atento para entender que este ou aquele pretendem seguir carreira como bailarino, e que outro pretende se enveredar pelos caminhos da educação ligada à dança, e que também há aqueles que apenas o fazem como uma atividade física que é mais prazerosa, mas sem nenhum tipo de ambição ligada a esta arte. Há uma infinidade de motivos/necessidades de um aluno estar dentro da sala de aula, e o professor precisa ser flexível o suficiente para atender a cada uma destas demandas.
Voltando para a dança, ressaltamos que a dança, antes de ser uma atividade física, é uma arte. E a arte faz parte de um todo mais amplo, que é a cultura. Cultura é tudo aquilo inserido num universo que inclui conhecimento, arte, crenças, leis, moral, costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano que o torna parte de uma sociedade. Cada povo tem sua própria cultura, que surge influenciada por diversos fatores. É um conjunto de ideias, comportamentos e práticas sociais, que passam de geração em geração através da vida em sociedade. Ou seja: cultura é a herança social da humanidade. E Cultura é um organismo vivo, que está sempre em movimento, agrupando, descartando, agregando, evoluindo, se desenvolvendo e é um retrato do homem de seu tempo. A principal característica da cultura é sua capacidade de adaptação, porque ela demonstra a habilidade do indivíduo em responder ao meio de acordo com a mudança de hábitos. Por esse motivo há alguns estudiosos que a consideram tão importante quanto a própria evolução biológica. Isso porque o mecanismo cumulativo cultural passa adiante as modificações trazidas de uma geração para geração seguinte, e que no decorrer do tempo vai se transformando, sempre pensando em tornar melhor a vivência das gerações – porque viver não é sinônimo de sobreviver, pra sobreviver a gente precisa de apenas de ar, água e alimento. Mas para viver, a gente passeia por aquela máxima dos Titãs: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. E este é um conceito que vem desde a Roma Antiga com a política do Panis et Circenses – que utilizava a arte, o entretenimento como forma de dominação – quando você oferece ao povo algo que o distraia e entretenha, além de mantê-lo nutrido e alimentado, fica muito mais fácil conseguir manipulá-lo.
De acordo com o filósofo francês, Roger Garaudy, a dança é um modo de existir, e é uma expressão ligada à magia, religião, trabalho, festa, amor e morte. E isso, faz com que os homens dancem em todos os momentos solenes de sua existência. Dançar é estabelecer uma relação ativa entre homem e natureza, é participar do movimento cósmico e do domínio sobre ele.
E ele sentencia que dançamos a vida e que é preciso expressar nossos sentimentos e nossas batalhas cotidianas, e com isso refletir para o público o movimento da vida. Transmitir através disso a relação do homem com ele próprio, com a natureza, com a sociedade, com o inconsciente, com o sobrenatural, com seus sentimentos e suas emoções. É preciso dizer algo ao dançar, como toda forma de expressão e arte. Com o corpo e a coreografia, estamos passando uma mensagem, e é preciso se envolver para que a mensagem seja passada. Por isso, convido vocês a refletirem sobre o que é a dança para vocês, isso indo muito além de qualquer barreira limitadora, não importa se vocês praticam ballet clássico, jazz, danças urbanas etc. O importante é refletir sobre o papel da dança na sua vida. O que você sente ao colocar seu corpo em movimento, porque você escolheu essa atividade dentre tantas outras? E o que você pretende transmitir através dessa arte? Vamos pensar a respeito?