A dança para mim é uma das melhores formas de expressão para o ser humano, e como bailarina, falo que é através dela que me liberto e sou quem realmente sou. Só ela me faz mostrar o que tenho por dentro e por fora, e não importa quantas vezes eu me perca e a minha vida fique sem rumo, será sempre dançando onde me encontrarei.
Eu acho que todos os apaixonados por dança pensam da mesma maneira, pelo menos um pouquinho, pois ela nos faz sentir mais livres, ela quebra barreiras e corta preconceitos. Não importa quem você seja, você também pode dançar. Pois na dança não existe negro, branco ou japonês, não existe o baixo ou o alto, e muito menos o esquisito.
Nela não existe tristeza, nela você só se solta conforme a música e liberta o ser que mora dentro de ti, aquele que está perdido e meio triste na escuridão que só precisa de uma luz para encontrar seu caminho para a própria felicidade.
Melissa Rodrigues tem 15 anos e começou a dançar aos três.
A dança é essencial para mim porque adquiri milhares de fatores e definições, me despertou conhecimento, interesse de observar e aperfeiçoar movimentos de acordo com o som, a musicalidade e a contagem. Me faz sentir muitas emoções ao mesmo tempo, é desafiadora, e me faz enxergar coisas que eu não sabia que era capaz de realizar.
Procuro esquecer dos problemas, como se dançar fosse a solução para tudo, como seu eu soubesse ali como lidar e me faz sentir bem comigo mesma. Me enche de prazer e curiosidade, sempre com um gostinho de quero mais. Me sinto livre para me abrir com a dança, uma terapia, como se eu escutasse a música e a música soubesse o que se passa na minha cabeça e tocasse direto no meu coração, me acolhesse, me abraçasse.
Não preciso falar nada, apenas sentir cada batida e mover o meu corpo para me expressar.
E a dança é cheia de surpresas, felicidade, orgulho, leveza, calmaria, paciência.
Penso que quando danço melhoro tudo em mim, por dentro e por fora. Porque a dança nunca me diz não, sou capaz de melhorar o que está a minha volta, de fazer acontecer, mostrar o lado positivo de tudo sempre. Posso fazer coisas que me inspiram, pois a dança me faz continuar, nunca desistir, e saber como errar e seguir. Me ajuda a levantar a cabeça e seguir em frente.
Também me faz reconhecer a capacidade dos outros, me desperta admiração, me faz enxergar simplicidade e caráter através dos gestos.
A importância da dança na minha vida, é principalmente o aprendizado que ela deixa todas as vezes que a vemos, ouvimos ou sentimos ela em nosso ser.
Emily Mayumi tem 15 anos, dança desde os 5, e é aluna e professora da Ciranda. Dá aula de Baby-jazz, Jazz Iniciante, Ritmos e Vídeo-clip.
A dança pra mim é uma união entre as pessoas. Ela é importante pra mim porque as pessoas se unem e fazem amizade.
Hoje, a dança pra mim é importante porque fazer novos amigos é muito legal, e aprender novas culturas, e diversão, e divertimento.
O amor, a alegria e etc., isso tudo faz parte da dança.
Também podemos viajar para lugares que nunca conhecemos para dançar.
Bom a dança pra mim é tudo isso.
Beijos da Dudinha.
Eduarda Alves Valença tem 10 anos de idade e dança desde os 4 anos. Com a dança já teve oportunidade de viajar para diversos lugares e conhecer diferentes palcos, culturas, línguas e linguagens.
Para compreender o termo “dança” com o sentido que lhe foi dado nesta composição com clareza é necessário ter em mente que todas as modalidades e técnicas tornam-se irrelevantes para a criação desse texto. Atualmente, a dança é o que compõe o meu ser, e não apenas o “ser físico” (corpo e RG – o descritível), mas o meu eu que possui valores. A dança, observando como um todo, me gera a experiência de sentir, criar e aprender.
Dentro de uma sala com linóleo e som eu sou uma figura moldável para o coreógrafo, dentro dos meus limites, que lentamente e com muito trabalho, vão sendo superados em aulas.
Pensando em limites, Nietzsche acredita que dançar é se superar. Sendo assim, eu vejo a dança como uma ferramenta de transcendência, pois há sempre um novo método de organizar meu corpo no espaço trabalhado. Transcende minha relação com o lugar, a mesma relação que se eu estivesse imóvel não seria a mesma.
Essa interação não ocorre só com o espaço, mas com a música também, por que a dança tende a me alinhar com a melodia. E pode existir dança sem música, mas música sem dança é raro, pois até para tocar o instrumento precursor daquele som o músico teve que se desenvolver em um movimento do corpo.
Portanto, sem anular a importância psicológica, e as amizades feitas no meio artístico e as coisas que aprendi, para mim a dança é a possibilidade de experimentar o mundo de uma forma diferente e única.
Esther Miranda tem 17 anos, é professora de baby jazz no período da manhã na Usina das Artes Ciranda, e também é aluna de Jazz Musical. Dança desde os 8 anos.
“A dança é a linguagem escondida da alma” – Martha Graham
Depois da publicação do texto e da vídeo-aula sobre A dança e o ser humano, nós levantamos esse debate para os alunos da Ciranda, para que eles refletissem sobre o papel da dança na vida do ser humano e na vida deles próprios, e saíram reflexões incríveis que vamos reproduzir por aqui com a autorização dos pais e dos próprios alunos em alguns posts. Espero que vocês gostem de ler os textos das nossas bailarinas cirandeiras tanto quanto nós gostamos de recebê-los.
É um imenso prazer poder compartilhar isso com vocês. ❤
Estamos passando por dias difíceis para todos nós. E essa quarentena pegou todo mundo de surpresa, e muitas escolas e plataformas estão oferecendo aulas de ballet online para seus alunos e muitas vezes também para os seus não-alunos. É compreensível que escolas e professores estejam desesperados, afinal, é uma crise que pode fazer com que muitos trabalhos tenham que recomeçar do zero quando tudo isso passar… Porém, é preciso também responsabilidade e cautela.
Existem muitas coisas que podem ser feitas neste período: conteúdos teóricos, sugestões de leituras; assistir filmes, repertórios completos e séries…
Porém, também compreendo que os bailarinos queiram se manter ativos neste tempo ocioso, tanto para ajudar a preencher o vazio quanto para tentar manter seus trabalhos corporais. Mas é essencial trabalhar a consciência de níveis. O que você não está apto a fazer? Sem exageros e euforias.
Me assusta muito ver tantas professoras e influenciadoras com os pés nas cadeiras, criando barras com vassouras, pois a gente não sabe quem está seguindo esses conselhos do outro lado. E como estamos sem acesso ao ballet, acabamos sendo atraídos por essas aulas online.
Primeiro, acho importante realçar que tudo isso é em caráter emergencial ❗️ Acho bastante perigoso que uma pessoa pratique ballet em casa, somente com orientação virtual. Entendo que fazer alguns exercícios em casa é aconselhável, mas apenas exercícios básicos, de fácil execução, de alongamento, os que não precisam de barra, os que já tenha aprendido, que está acostumada e sabe fazer sozinha fora da sala de aula.
Nossa arte é pautada por características técnicas específicas e trabalha diretamente com essa técnica aplicada ao corpo para existir. Pode parecer fácil, mas não é. “O ballet clássico não é uma arte autodidata, ele é uma mistura de conhecimentos físicos e técnicos e apenas um professor qualificado pode ensinar a você. O estudo em casa é um complemento do estudo em sala de aula”, disse a Cassia Pires do blog Dos passos da bailarina.
Pode parecer inofensivo tentar aprender com vídeo-aulas, mas isso vai gerar um aprendizado equivocado e sujo de uma técnica que precisa ser lapidada aos poucos e que levamos muito tempo para aprender e aprimorar. Quando falamos de sapatilha de ponta então, essa questão fica ainda mais grave. A bailarina pode se machucar e provavelmente terá um resultado muito longe do satisfatório, bem distante do que caracteriza o ballet clássico.
LEMBREM-SE: se aqueçam (alongar NÃO é aquecer)!
Escolham o melhor espaço. Optem por exercícios menos complexos e espaços maiores, com pisos mais adequados dentro do possível. Cuidem-se! Pois quando tudo isso passar, vocês precisam estar prontos para voltar e tudo que a gente não precisa é de vocês indo ao hospital tratar lesões!
Procure saber a formação do profissional que está te dando dicas! Muitas vezes é alguém sem capacitação que fala de ballet com falsa “propriedade”. Na dúvida do que podem ou não fazer (em casos de conteúdos que não são da sua escola), perguntem para os professores de vocês, ok! Peçam indicações e autorização para eles 😉
Este post é uma reprodução levemente alterada do post do Mundo Bailarinístico, escrito por Dryelle Almeida.
Essa ciranda Quem me deu foi Lia Que mora na Ilha de Itamaracá…
Para muita gente, Ciranda tem raiz e sotaque pernambucano. E fortes traços de canções praieiras, como as entoadas por pescadores e suas companheiras, enquanto remendam as redes ou tratam os peixes trazidos de alto mar. E associada à cirandeira-mor Lia de Itamaracá, que tem história, e não é de agora, mas ganhou um pouco mais de visibilidade no Brasil a partir dos anos 70 do século passado, graças a gravações do Quinteto Violado, afinadíssimo grupo vocal e instrumental pernambucano.
Dança de roda infantil de origem controvertida, segundo um dos mais conhecidos estudiosos do nosso folclore, Luís da Câmara Cascudo (autor do Dicionário do Folclore Brasileiro, cuja primeira edição é de março de 1954), a ciranda é vulgaríssima no Brasil, vinda de Portugal, onde é bailado de adultos. Por aqui, também em São Paulo e outros estados do Sul/Sudeste, é dança de adultos, daquelas que fecham bailes rurais como o fandango, em rodas concêntricas – homens por dentro, mulheres por fora, entoando cantorias como esta versão recolhida em Natal (RN): “Ó ciranda, ó cirandinha/Vamos todos cirandar/Vamos dar a meia volta/Meia volta vamos dar/E depois da volta dada/Cavalheiro troque o par”… Um pouco diferente desta versão entoada nos anos 1950 em Portugal: “Ó ciranda, ó cirandinha/Vamos dar a meia volta/Meia volta vamos dar/Vamos dar a outra meia/Outra meia e troca o par”…
A associação da ciranda a outras expressões do nosso folclore oriundas da Península Ibérica, observada por diferentes estudiosos do assunto, vem de longa data, como em publicações de gente do naipe de Florestan Fernandes (As Trocinhas do Bom Retiro), Veríssimo de Melo (Rondas Infantis Brasileiras), Zaíde Maciel de Castro (Danças Brasileiras) e outros que se debruçaram sobre o assunto, como Mário de Andrade (Música do Brasil).
PENEIRANDO – Ciranda, para quem não sabe, é o nome de uma peneira grossa de palha, utilizada para joeirar grãos, cascalhos e pedriscos. O Dicionário da Língua Portuguesa, da Larousse Cultural, registra que o substantivo feminino Ciranda vem do árabe saranda. E o verbo transitivo Cirandar significa passar pela ciranda, peneirar; enquanto o verbo intransitivo Cirandar quer dizer andar de um lado para o outro, dançar a ciranda.
Já o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa registra que ciranda, além de “peneira grossa de palha para joeirar grãos”, é uma dança de roda infantil ou adulta, oriunda de Portugal, com trovas cantadas que determinam os movimentos figurados. A data mais antiga da “expressão obscura” é do espanhol zaranda, conexo ao português ciranda (çaranda, 1400).
Ah! Joeirar quer dizer peneirar, separar o joio do trigo, passar pela peneira.
Peneira daqui, futuca dali, há muita fumaça e pouco fogo quando se fala em ciranda por essas bandas. Mário de Andrade fazia referência a um certo samba rural coreografado como se dança a ciranda, na zona rural fluminense, na primeira metade do século passado. E há alusões ao bailado em terras brasileiras já nos séculos XVIII e XIX. Mas tudo muito vago. Os pernambucanos puxam a brasa pro seu peixe, atribuindo a dança a reuniões de trabalho e/ou festiva em aldeias de pescadores.
VAMOS TODOS CIRANDAR – Além das cantorias na voz de Lia de Itamaracá, expressão artística e cultural da ilha que fica a menos de 50 km do Recife, é possível apreciar ciranda em gravações como Minha Ciranda (Antônio Perna/Ruy Espinheira) em discos do Quinteto Violado (LP Berra Boi, Philips, 1973), Roda de Ciranda Nº 2 (Marcelo Melo, Toinho Alves, Luciano Pimentel), no disco Folguedo (Philips, 1975), e Roda de Ciranda (Marcelo Melo/Toinho Alves), no LP Asa Branca (Fontana/PolyGram, 1979).
Há, ainda, composições escritas e/ou gravadas por outros compositores. Como Paulinho da Viola e Capiba. Veremos a seguir:
Eu sou Lia [Ciranda de Lia] – (Gravada por Paulinho da Viola)
Eu sou Lia da beira do mar
Morena queimada do sal e do sol
Da Ilha de Itamaracá
Quem conhece a Ilha de Itamaracá
Nas noites de lua
Prateando o mar
Eu me chamo Lia e vivo por lá
Cirandando a vida na beira do mar
Cirandando a vida na beira do mar
Vejo o firmamento, vejo o mar sem fim
E a natureza ao redor de mim
Me criei cantando
Entre o céu e o mar
Nas praias da Ilha de Itamaracá
Nas praias da Ilha de Itamaracá.
Minha ciranda – (Gravado por Capiba)
Minha ciranda não é minha só
Ela é de todos nós
A melodia principal quem
Guia é a primeira voz
Pra se dançar ciranda
Juntamos mão com mão
Formando uma roda
Cantando uma canção
PATRIMÔNIO VIVO DE PERNAMBUCO – Pernambucana da primeira metade do século passado, e xará da avó paterna de Tayra, Maria Madalena Correia do Nascimento, Lia de Itamaracá nasceu no dia 12 de janeiro de 1944, na ilha que agregou ao nome artístico. Sempre morou ali. Com certeza não inventou a roda de ciranda. E começou a participar das manifestações deste bailado cantado aos 12 anos de idade. Única dos 22 irmãos a se dedicar à música, diz ela que isso “é um dom de Deus e uma graça de Iemanjá”. Por essas e outras foi uma das contempladas como Patrimônio Vivo de Pernambuco, através da Lei estadual nº 12.196 de 2 de maio de 2002.
Varapau para os padrões nordestinos (e mesmo do estado de São Paulo), do alto de seus 1,80m de altura, ela canta e compõe desde a infância. E não é de agora que é considerada a mais famosa cirandeira do Nordeste. Também canta e compõe “coco de roda” e maracatu. Conhecida como Lia de Itamaracá desde os anos 1960, ela é a fonte de um refrão famoso: “Ó cirandeiro/Cirandeiro ó/A pedra do seu anel/Brilha mais do que o sol”, versos aos quais foi incorporado: “Esta ciranda quem me deu foi Lia/Que mora na Ilha de Itamaracá”…
Lia de Itamaracá
Em 1977, a cirandeira gravou seu primeiro disco, “A Rainha da Ciranda”. No entanto, segundo conta, não recebeu nem um tostão de mel coado como pagamento pelo trabalho. Vida que segue. Mais de duas décadas depois de debutar, foi redescoberta no festival Abril Pro Rock, realizado no Recife e em Olinda, em 1988. Ali fez sucesso retumbante e tornou-se conhecida em todo o Brasil. Até então, só era famosa em Pernambuco e entre os compositores e estudiosos da cultura popular nordestina.
O CD Eu sou Lia, lançado pela Ciranda Records, saiu em 2000. Reeditado pela Rob Digital, o repertório incluía, além de cirandas acompanhadas de percussão e saxofone, outros ritmos como coco de raiz e loas de maracatu. A gravação acabou sendo distribuída na França por um selo de world music e a voz rascante de Lia despertou a atenção da imprensa internacional, que começou a chamar suas composições de trance music, numa tentativa de explicar o transe que o som provocava no público.
Por essas e outras, Lia conquistou mais espaço por aqui. Participou de uma faixa do CD Rádio Samba, do grupo Nação Zumbi. Teve seu nome citado em composições dos pernambucanos Lenine e Otto. E hoje as cirandas de Lia são cantadas por muita gente. Lia, contudo, continua morando na Ilha de Itamaracá.
A ilha fica a cerca de 50 km do Recife. Contam que teria recebido os primeiros portugueses na figura de náufragos. E falam da passagem por ali, de João Coelho da Porta da Cruz, em 1493, e Duarte Pacheco Pereira, em 1498. Sabe-se, ainda, por registros da Coroa, que em 1526 já havia no local uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, de responsabilidade do padre Francisco Garcia, na Vila Velha. E que a ilha prosperava à sombra da economia açucareira e, em 1630 já possuía cem prédios, uma Santa Casa de Misericórdia, casa residencial do governador, câmara, cadeia e duas igrejas – a Matriz de Nossa Senhora da Conceição e a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. O nome Itamaracá deriva da língua tupi e, entre outros significados propostos, quer dizer “pedra que canta”, dos termos “itá” (pedra) e “mberaká” (chocalho).
Tudo isso pode ser cem por cento verdadeiro, parte inventada e outra parte conversa de pescador. Até daria para compor uma ciranda. Mas isso é coisa pra cirandeiro, coisa que não sou.
Béjart fala que a dança é uma das coisas que mais une o homem, que é algo capaz de derrubar o mito da Torre de Babel, porque através da dela todos se comunicam, sem limites ou barreiras. E se pensarmos em momentos felizes e emblemáticos da vida de uma pessoa, sempre veremos que há dança envolvida: seja a valsa de quinze anos, a primeira dança de um casal no dia de seu casamento, jogadores de um time que acaba de ganhar um título ou fazer um gol fazendo uma rodinha numa espécie de “tchu-tchu”, ou mesmo os jogadores néo-zelandezes, que sempre fazem uma apresentação de haka antes de começarem uma partida (para entrar em conexão com seus ancestrais maori).
É só ver, a dança sempre vai estar ali, porque dança é uma das mais puras expressões da cultura de um povo. E Béjart também brinca que se um bêbado se levanta e começa a dançar, logo é seguido por outro e mais outro e mais outro, e rapidamente teremos um grande grupo de bêbados dançando, e logo se forma uma turma coesa, unindo todos em torno de um interesse comum, não importando mais nada, nem língua, nem classe social, nem visão política, nada, só o movimentar de seus corpos é importante naquele momento.
A palavra dança, em todas as línguas européias (seja danza, dance, tanz etc.) derivam da palavra ‘tan’, que vem do sânscrito e significa tensão. Isso porque dançar é, acima de tudo, criar uma tensão muscular em seu corpo e estabelecer uma relação próxima e ativa entre o homem e a natureza. A dança surgiu para que o homem pudesse identificar-se com o seu “ao redor”, captar os movimentos e as forças da natureza, e captá-los, imitá-los. Para o homem ancestral, esse expressar era algo forte e necessário. Basta parar e pensar que sempre que pensarmos em algo relacionado a alguma tribo, cultura etc. sempre vamos fazer relação com algum tipo de dança: há a dança da chuva, dança do acasalamento, dança de celebração de conquista etc. E se pararmos e pensarmos em dança caráter, há um sem fim de danças características de um povo, de uma cultura. E tudo isso é muito lindo e enriquecedor!!!
Então acho que já está claro que dança é uma expressão artística. E como toda expressão pura de arte é algo inato do homem. Por isso, podemos parar e pensar que quase todo ser humano tem instinto/necessidade de dançar e também tem habilidade para isso. E é muito importante que se enfatize isso, que se martele isso na cabeça de todas as pessoas, que se insista nesse ponto: TODO SER HUMANO TEM CAPACIDADE PARA DANÇAR!
As limitações para isso somos nós criamos dentro de uma série de regras e normatizações que são posteriores ao instinto em si. Somos nós que dizemos que alguém não tem ritmo, que não tem molejo, que tem “dois pés esquerdos”, ou que é en dedans, que não tem abertura, que não sabe contar etc. etc. etc. E essas normas todas, ainda que sejam importantes, nada tem a ver com o impulso da dança em si. Por isso é importante que um professor de dança, além de buscar a constante evolução de seu aluno, também tenha um olhar atento para entender que este ou aquele pretendem seguir carreira como bailarino, e que outro pretende se enveredar pelos caminhos da educação ligada à dança, e que também há aqueles que apenas o fazem como uma atividade física que é mais prazerosa, mas sem nenhum tipo de ambição ligada a esta arte. Há uma infinidade de motivos/necessidades de um aluno estar dentro da sala de aula, e o professor precisa ser flexível o suficiente para atender a cada uma destas demandas.
Voltando para a dança, ressaltamos que a dança, antes de ser uma atividade física, é uma arte. E a arte faz parte de um todo mais amplo, que é a cultura. Cultura é tudo aquilo inserido num universo que inclui conhecimento, arte, crenças, leis, moral, costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano que o torna parte de uma sociedade. Cada povo tem sua própria cultura, que surge influenciada por diversos fatores. É um conjunto de ideias, comportamentos e práticas sociais, que passam de geração em geração através da vida em sociedade. Ou seja: cultura é a herança social da humanidade. E Cultura é um organismo vivo, que está sempre em movimento, agrupando, descartando, agregando, evoluindo, se desenvolvendo e é um retrato do homem de seu tempo. A principal característica da cultura é sua capacidade de adaptação, porque ela demonstra a habilidade do indivíduo em responder ao meio de acordo com a mudança de hábitos. Por esse motivo há alguns estudiosos que a consideram tão importante quanto a própria evolução biológica. Isso porque o mecanismo cumulativo cultural passa adiante as modificações trazidas de uma geração para geração seguinte, e que no decorrer do tempo vai se transformando, sempre pensando em tornar melhor a vivência das gerações – porque viver não é sinônimo de sobreviver, pra sobreviver a gente precisa de apenas de ar, água e alimento. Mas para viver, a gente passeia por aquela máxima dos Titãs: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. E este é um conceito que vem desde a Roma Antiga com a política do Panis et Circenses – que utilizava a arte, o entretenimento como forma de dominação – quando você oferece ao povo algo que o distraia e entretenha, além de mantê-lo nutrido e alimentado, fica muito mais fácil conseguir manipulá-lo.
De acordo com o filósofo francês, Roger Garaudy, a dança é um modo de existir, e é uma expressão ligada à magia, religião, trabalho, festa, amor e morte. E isso, faz com que os homens dancem em todos os momentos solenes de sua existência. Dançar é estabelecer uma relação ativa entre homem e natureza, é participar do movimento cósmico e do domínio sobre ele.
E ele sentencia que dançamos a vida e que é preciso expressar nossos sentimentos e nossas batalhas cotidianas, e com isso refletir para o público o movimento da vida. Transmitir através disso a relação do homem com ele próprio, com a natureza, com a sociedade, com o inconsciente, com o sobrenatural, com seus sentimentos e suas emoções. É preciso dizer algo ao dançar, como toda forma de expressão e arte. Com o corpo e a coreografia, estamos passando uma mensagem, e é preciso se envolver para que a mensagem seja passada. Por isso, convido vocês a refletirem sobre o que é a dança para vocês, isso indo muito além de qualquer barreira limitadora, não importa se vocês praticam ballet clássico, jazz, danças urbanas etc. O importante é refletir sobre o papel da dança na sua vida. O que você sente ao colocar seu corpo em movimento, porque você escolheu essa atividade dentre tantas outras? E o que você pretende transmitir através dessa arte? Vamos pensar a respeito?